É quase ano novo e eu não tenho programação. Na verdade, tudo que tenho a esta altura é um crescente desespero. Descartei as festas de interior por não ter mais estômago para receber cantadas de meninos com bigodinhos por fazer e ter ainda que disputar os poucos que destoam com meninas de cabelo molhado e cachinhos á lá 'estou indo para igreja' caidinhos nos dois lados do rosto. Além disso, na última que encarei, tocaram 'we are the champions' na virada e eu quase comecei a chorar.
Descartei qualquer festa paga em Goiânia por preguiça de encarar 300 meninas idênticas, de vestidinho colado, bunda empinada e cabelos escorridos, sorrindo, brindando e disputando o mesmo bombadinho acerebral, enquanto eu quero mais é gritar pra todo mundo que essa produção em massa de aspirantes a BBB é uma merda, assim como todas essas festas, e que eu desejo personalidade e amor próprio a todas elas em 2012.
Do resto e do que possivelmente eu adoraria, o baixo poder aquisitivo de estudante se encarregou de me excluir.
Ah, e nem cogitei a possibilidade de vestir a carapuça da carência e do desespero e ligar para algum ex namorado. Retroceder logo na virada do ano? Que merda de ano eu teria. Até por que, na verdade, todos eles devem estar bem acompanhados com 'com imbecis “sem sal” que reclamam menos do que eu porque lhes faltam inteligência e poder argumentativo!'
O ano novo nos remete a comemoração e a tudo que esperamos para o ano seguinte. E talvez por isso, ficamos tão sedentas e desesperadas por um lugar e por companhias que nos dêem a sensação de estarmos cumprindo nosso papel de sermos felizes. A festa de ano novo é apenas mais um complemento da esteriotipação da felicidade, aquele manual que todos nós seguimos por medo de, não acharmos que somos felizes o suficiente, ao pararmos pra pensar no que temos feito da nossa vida e compara-la com a de outras pessoas. E é justamente essa esteriotipação que causa a banalização dos valores. É isso que nos faz pensar que felicidade é manquim 38, viajar pra disney com 15 anos, ganhar ótimos presentes no natal, escolher namorados pela cor do carro, sair todos os fins de semana, pegar todo mundo e ter uma virada de ano bombante. É a massificação dos desejos, é a produção em larga escala de pessoas que desde pequenas são influenciadas a valorizar o supérfulo e a simplesmente, não começar a ser feliz enquanto não o alcança. Eu acho isso um saco.
Eu tenho meu conceito de felicidade e ele está longe de festas comuns, pessoas comuns e situações ordinárias. Eu quero mais. 'Eu estou farta do lirismo comedido, do lirismo bem comportado... Eu quero antes o lirismo dos loucos, o lirismo dos bêbados, o lirismo difícil e pungente dos bêbedos, o lirismo dos clowns de Shakespeare, não quero mais saber do lirismo que não é libertação.'
Eu queria minha festa repleta de tudo que na verdade eu desejo pra mim em 2012. Uma festa pé no chão, escrita em todas as paredes, ' illusion never changed into something real', com alface, rúcula e tomate no cardápio, vários homens pelados andando calmamente, minhas amigas preferidas com chicotinhos na mão e eu com a promessa de achar, pelo resto do ano, que minha grama é mais verde sim e que todo mundo quer pisar nela.
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5 falando, que beleza.:
Eu sempre tive horror de festa de Reveillon. Som ensurdecedor com músicas que, via de regra, eu não suporto, gente se esforçando desesperadamente para demonstrar que são as mais felizes e descontraídas do universo, madames se estapeando para levar para casa até as melancias decorativas da mesa de frutas (afinal, o ingresso é "com tudo incluso" não? Tem que levar vantagem!), gente se acotovelando para conseguir beber um copo de chope, babacas metidos a macho-alfa arrumando briga com quem eles acham que estão paquerando seus interesses sexuais, senhoras com complexo de Suzana Vieira loucas para dar para alguém com metade da idade do neto delas, gente pedindo para tocar Raul ou "O Peixe", enfim, um SACO.
Quando eu era mais novo e inocente, caí em várias dessas roubadas. Não mais.
Bia, não me lembro como conheci seu blog, mas o acompanho já a algum tempo. Aliás, no dia que o descobri, passei a noite lendo todos os posts anteriores!
Nunca tinha comentado, ainda que tenha sempre me identificado com o que você escreve.
Decidi comentar hoje porque é a primeira vez que eu não me sinto sozinha quando se trata de Réveillon, rs! Todo ano passo por esse desespero pelo qual voce esta passando.
Acho essas festas tão vazias, tão... tristes. E quando eu digo isso para as pessoas, todos me olham com espanto.
(Assim como quando eu falo que não preciso casar e ter filhos para me sentir uma mulher realizada. Você já falou sobre isso também, certo?)
Gostaria de encerrar deixando duas charges da Mafalda, que eu adoro, e se encaixam no tema 'Reveillon'.
http://2.bp.blogspot.com/_EmH3IBFjA48/TR3sSVgJ0II/AAAAAAAAAOg/YN2OIRhnI4U/s1600/Mafalda%2BCharge.JPG
http://2.bp.blogspot.com/_EmH3IBFjA48/TR3sLLi20AI/AAAAAAAAAOY/KECx7TfgHGg/s1600/Mafalda%2BCharge%2B1.jpg
Raquel, tentei procurar um meio de me comunicar com você mas seu perfil não disponiiliza nada. Por isso falarei por aqui mesmo, ainda que haja a possibilidade de você nunca ver. As estatísticas do meu blog me mostram sempre quantas pessoas lêem o que eu escrevo mas eu não sei quem são. É sempre muito bom conhecer um 'rostinho' novo, uma história nova, uma opinião sobre o que eu gosto tanto de fazer. Isso aqui, ainda que seja uma coisa boba pra muitos, significa muito pra mim. E por isso é sempre bom ter o reconhecimento de uma pessoa tão simpática como você. Obrigada, aguardo mais comentários seus. Beijos, Bia.
Bia, mais uma vez um texto maravilhoso. E dessa vez, fechando o ano com chave de ouro. Acho que o que mais gosto nos seus textos é que tenho opiniões muito parecidas com as suas, e você consegue expô-las de um jeito que eu nunca conseguiria! Adorei, adorei, adorei, adorei!
Parabéns (e que 2012 nos traga menos "meninas idênticas, de vestidinho colado, bunda empinada e cabelos escorridos, sorrindo, brindando e disputando o mesmo bombadinho acerebral")
beijos
não preciso dizer que diria o mesmo que a Raquel não, né? também procurei o blog dela, mas não encontrei. primeira vez que eu comento, mas não é a primeira que me identifico. uma amiga de trabalho me apresentou o teu blog, e fico de olho sempre que posso desde então.
curta seu ano novo da maneira que você quer curtir. ninguém tem nada que encher teu saco não, cara... um porre isso!
beijo.
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